Autoridade

Abril 21, 2008

Quando pegou a Evinha descascando uma banana, o pai decidiu impor sua autoridade paterna, pelo menos na área dos hortifrutigranjeiros

Os filhos nunca acreditam que crescer é perigoso. Não adianta avisar para continuarem crianças. Eles crescem e vão embora. E depois se queixam. Leia o resto deste artigo »


Na Cara

Abril 21, 2008

Gosto muito (tanto que a cito muito) daquela cena de um filme dos irmãos Marx em que o Groucho, um general, postando-se à frente de um mapa para explicá-lo aos seus comandados, diz:
— Uma criança de três anos entenderia isto.

E depois de algum tempo examinando o mapa:

— Tragam uma criança de três anos!

Uma criança de três anos teria dito ao Bush que a intervenção no Iraque levaria a uma guerra aberta entre facções religiosas e etnias que sempre se desentenderam no país. Bush ouviu seus ideólogos neoconservadores. Não aconteceu o que eles previram. Aconteceu o que uma criança de três anos diria que estava na cara.

A criança de três anos não representa apenas o óbvio, ou o senso comum. Representa um olhar inocente, no sentido de ser livre de idéias feitas, ilusões e vícios de pensamento. Não é fácil pensar como a proverbial criança de três anos — há o risco de se confundir simplismo com sabedoria. Mas é sempre saudável pensar em assuntos complexos — ou em outras áreas de conflito além do Iraque, como, por exemplo, a política brasileira — tentando separar o que é preconceito e vontade do que está na cara.

Pergunte-se sempre como a criança de três anos do Groucho entenderia as várias barafundas atuais e o que realmente está acontecendo.

Ou, pelo menos, como o Groucho, mande chamá-la.

 

 


De Regatas

Abril 21, 2008

Já procurei, mas ainda não encontrei uma explicação satisfatória para a origem da palavra “sacanagem”. Como tem um som algo francês, e como os franceses têm uma palavra para tudo, especula-se que seja um galicismo adaptado. Viria de “sac a nager”, bolsas de ar que ajudavam os franceses arcaicos a boiar e que por alguma razão acabou adquirindo o significado de sacanagem como a conhecemos hoje. Talvez devido à prática de furar os sacos para afundar os franceses. Pode-se imaginar os franceses se debatendo na água e gritando:— Mon sac a nager! Mon sac a nager!

E os ingleses na margem como se não fosse com eles.
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Esportes

Abril 21, 2008

Quase todos os esportes tiveram sua origem em algum tipo de brincadeira de infância, mesmo que a “infância”, no caso, fosse a da humanidade.***

Você pode identificar o provável começo de todas as modalidades olímpicas nas coisas que gostava de fazer quando garoto – como arremesso de pedras contra vidraça de vizinho e corrida de fundo para fugir do vizinho – ou então na História: o salto com vara, por exemplo, certamente começou no sítio a cidades fortificadas, depois de decidirem que atirar javalins, martelos e discos por cima do muro não estava dando resultado.

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Cinzas

Abril 21, 2008

No tempo em que ainda se escrevia crônicas de Carnaval (pequenas ficções sobre alegrias ilusórias e glórias passageiras, pseudo-ensaios sociológicos sobre essa peculiaridade nacional, sobre a criatividade popular ou a metafísica de um umbigo) a literatura da Quarta-feira de Cinzas era maior do que a dos outros dias. Quarta-feira de Cinzas era dia de ressaca e remorso, de fim de recreio e volta ao chão, e de todas as possibilidades dramáticas ou patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na sarjeta. Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-feira de Cinzas, a crônica de volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no portão, e não aceitando desculpas.
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Como se…

Abril 21, 2008

Sempre que via um pôr-do-sol bonito, sentia que não era para ela. Sempre que comia sorvete de doce de leite era com a mesma sensação de clandestinidade

…como se fosse a sua casa na próxima Idade do Gelo, tudo congelado, tudo coberto com uma camada do que parecesse vidro, e você entrasse na casa mal podendo se equilibrar sobre o chão escorregadio, e tudo que você tocasse se desmanchasse como se fosse feito de açúcar, tudo, a poltrona do seu pai, as cortinas duras da sala de jantar, a cristaleira, e bastasse tocar em qualquer coisa com um dedo, as frutas artificiais sobre a mesa, as cadeiras em volta da mesa, e cairia em estilhaços – até a geladeira.

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Na vida como no pôquer

Abril 21, 2008

“Ao nascer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar, como no pôquer”, disse Julião. “Eu não recebi carta nenhuma quando nasci”, retrucou o Telmo, que mastigava seu charuto

“O pôquer é uma metáfora para a vida.” A frase pairou no ar, junto com a fumaça. Eram cinco em volta da mesa. Dois fumavam charutos. O autor da frase esperou alguns minutos pela reação dos outros e, quando ela não veio, começou a repetir:

- O pôquer é uma metá…

- Está bem, Julião – disse um dos outros, com um suspiro – o pôquer é uma metáfora para a vida. Desenvolve, desenvolve. Leia o resto deste artigo »


Esquemas

Abril 21, 2008

Tudo o que ele queria era terminar a sexta-feira de uma semana pesada com um chope. Mas o Pepe apareceu e perguntou: “Você está sabendo do esquema do Izail?”

Só queria um chope antes de ir para casa. Sexta-feira de uma semana pesada. Calor. Cansaço. A última coisa que queria era conversa com o Pepe. Mas o Pepe veio sentar ao seu lado na mesa.
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Obrigado, Fernando Henrique

Abril 21, 2008
Recebi um cartão de crédito novo para substituir um vencido. Junto, a instrução: ligar para 4001-4828 para desbloquear o cartão.Meu número de RG. O número do meu CIC. O nome do meu pai. O nome da minha mãe. Gosta de iogurte? É ciumento? Não, esses dois itens eu estou inventando. Mas dei a informação pedida. Depois de uma pausa para consultar o computador, a voz disse:

— Senhor, os dados não estão corretos.

Examinei os números do cartão antigo e do novo. Eram aqueles mesmo. Meu RG era aquele mesmo. Meu CIC também. Será que eu passara a vida inteira chamando meu pai pelo nome errado? E o nome da minha mãe, era pseudônimo? Pouco provável. Eu disse para a voz que os dados estavam certos.

— Senhor, alguns dados não conferem com os que temos. Por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.
— Mas eu estou com a documentação aqui e se ligar outra vez vou dar a mesma informação.

— Senhor, por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.
— Quais são os dados que não estão certos?

— Senhor, não podemos dar essa informação.
— Mas como é que eu posso corrigir um dado se não sei qual é o errado?
— Senhor…

Finalmente descobri que podia passar um fax com cópias dos documentos que provavam que eu era eu. Foi o que eu fiz. Semanas depois recebi uma carta impressa, com um “x” marcando a razão pela qual meu fax era inaceitável: “Ilegível”. Mandei as mesmas cópias, bem nítidas, pelo correio. Passaram-se semanas. Liguei outra vez para o 4001-4828, para saber das novidades. A voz sabia do meu fax ilegível.

— Mas eu mandei uma carta depois.
— Também estava ilegível.

Desisti de desbloquear meu cartão novo. Tudo bem. A vida moderna tem esses buracos negros tecnológicos, culpa de ninguém. Mas será que sabem o estrago que fizeram no amor próprio de um cronista, chamando-o repetidamente de ilegível? Foi por estar assim fragilizado que fiquei emocionado quando me contaram que o Fernando Henrique Cardoso, na sua entrevista no “Roda Viva” (não vi, estava vendo outro bom ator, o Marlon Brando, na Net), disse que eu não entendia de nada, mas escrevia bem. Eu e meu ego nos sentimos desagravados. Obrigado, Fernando Henrique!

Só um adendo. Há dias chegou uma correspondência do cartão de crédito, estranhando a minha demora em desbloquear o cartão novo.

Se não fosse uma carta impressa, sem uma assinatura humana, eu desconfiaria de ironia.

Como sabe quem liga para um número destes, é preciso passar por um teste de atenção e reflexos, comandado por um robô com voz feminina, antes de merecer o direito de falar com um ser humano. De acordo com o assunto, digita um número, que leva a outra escolha de número, que leva a outra, e a outra, até — se você escolheu a seqüência certa — ser saudado por uma voz de gente, mas parente do robô, porque o tom é parecido, que pergunta em que pode servi-lo. Eu disse o que queria. Desbloquear o cartão novo que tinham me mandado. Leia o resto deste artigo »

De areia

Abril 21, 2008

“Bonito o seu castelo de areia”, disse o homem para o garoto na beira do mar. “Não é castelo”, respondeu o guri. “É um condomínio fechado”

O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo. Lembrou-se do seu orgulho quando terminava a construção, dando os retoques finais com areia molhada. Não importava que a construção fosse destruída logo em seguida, ou que a maré a destruísse durante a noite. Podia fazer outra. E se orgulhar de novo ao terminar seu castelo de areia.
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Lerdeza

Abril 21, 2008

A frase que o Everton mais ouvia da mãe era “levanta e vai buscar”, geralmente seguida de um epíteto, como “seu preguiçoso” ou, pior, “lerdeza”. Porque o que o Everton mais fazia, atirado no sofá na frente da TV na sua posição de costume (que a mãe chamava de “estrapaxado”), era pedir para lhe trazerem coisas. Uma Coca. Uns salgadinhos…

- Levanta e vai buscar!

- Pô, mãe.

- Lerdeza!

O Everton já estava com quinze anos e era uma luta convencê-lo a sair do sofá e ir fazer o que os garotos de quinze anos fazem. Correr. Jogar bola. Namorar. Ou pelo menos ir buscar sua própria Coca.
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Papos

Abril 21, 2008

- Me disseram…
- Disseram-me.
- Hein?
- O correto e “disseram-me”. Não “me disseram”.
- Eu falo como quero. E te digo mais… Ou é “digo-te”? – O quê?
- Digo-te que você…
- O “te” e o “você” não combinam.
- Lhe digo?
- Também não. O que você ia me dizer?
- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a
cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
- Partir-te a cara.
- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
- É para o seu bem.
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender.
Mais uma correção e eu…
- O quê?
- O mato.
- Que mato?
- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo e elitismo!
- Se você prefere falar errado…
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou
entenderem-me?
- No caso… não sei.
- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?
- Esquece.
- Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou
“esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
- Depende.
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não
sabes-o.
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso
mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
- Por que?
- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.


Duas Histórias

Abril 21, 2008

Homem senta num bar ao lado de um velhinho que lhe parece familiar. O velhinho está um caco mas, mesmo assim, aquele bigodinho, aqueles olhos…
- Desculpe, mas você não é o Adolf Hitler?
- Sou.
- Pensei que você tivesse…
- Todo mundo pensou. Continuo vivo.
- Aposto que você vive cheio de remorso pelo que fez.
- Que foi que eu fiz?
- Mas como? E os seis milhões de judeus que mandou matar?
- Ach,eles. Já tinha me esquecido.
- Quer dizer que se fosse começar outra vez, hoje, você faria a mesma coisa?
- Não. Mandava matar seis milhões de judeus e dois acrobatas.
- Por que dois acrobatas?
- Viu como você esqueceu os judeus?

A tática, ajustada às devidas proporções, tem sido muito usada por aqui. Quando um assunto ameaça a se tornar um escândalo, ou quando um escândalo ameaça se tornar assunto, acrescente, rápido, dois acrobatas. Os acrobatas passam a ser o assunto. E os acrobatas não têm falhado muito, ultimamente, neste país de distraídos. Sua última aparição foi no caso do Eduardo Jorge. Lembra dele? Eduardo Jorge, aquele que era secretário particular do… O patriciado brasileiro sobrevive porque dominou a arte de mudar de assunto

Outra história que eu gosto, tanto que repito sempre, é a do sortudo. Um sortudo extraordinário. Um sortudo de nascença que conseguia tudo o que queria sem qualquer esforço. Na escola, nos negócios, no jogo. E com as mulheres. Não era um homem especialmente sedutor, apenas tinha sorte. E foi acumulando conquistas amorosas, para desespero e inveja dos outros. Foram tantas as conquistas que um dia ele parou para fazer um inventário sexual e concluiu que de todos os tipos de mulheres no mundo, ele não faturara uma hindu. Ou é hindua? Enfim, uma moça da Índia. Por sorte, conheceu uma naquela mesma noite. E naquela mesma noite ela estava em sua cama, apresentando-o às mil maneiras de fazer o amor oriental. Até que, saciados, os dois dormiram. O sortudo acordou mais cedo. Ficou olhando o rosto da moça, que dormia profundamente. E viu que ali estava a oportunidade de descobrir uma coisa que sempre o intrigara. O que é aquele sinal que as mulheres da Índia têm no meio da testa?
Então o sortudo raspou o sinal da testa da moça com a unha – e ganhou um Gol zero quilômetro!

A Michelle

Abril 21, 2008

Não se deve ver coisas demais na Michelle. Já ouvi alguém chamá-la de “Linda!”, mas devia ser um esquerdista brasileiro, sem muito com o que se entusiasmar ultimamente, num momento de descontrole. Para começar, quem ganhou as eleições no Chile foi a situação. A “Concentración”, coalizão de centro-esquerda que apoiou Michelle, governa o Chile há anos. Não deve mudar muita coisa na política econômica do país que os neoliberais brandem como exemplo de sucesso na América Latina. O que é diferente, apenas curioso ou entusiasmante mesmo na Michelle depende da ordem em que você declinar seus atributos mais citados: socialista, mulher e divorciada agnóstica; mulher, socialista e divorciada agnóstica; divorciada agnóstica, socialista e mulher etc.

Se socialista é o mais definidor de tudo que ela é, isso significa que os chilenos não quiseram apenas outro social-democrata no poder e que os problemas criados pelo modelo neoliberal, como crescentes concentração de renda e distância entre ricos e pobres, que conhecemos bem, se agravam e pedem outro aproxe. Também significa que, mantidos os contextos e as peculiaridades de cada um (ela não é exatamente o Evo Morales de tailleur), a eleição da Michelle faz parte da mesma reação que já elegeu ou está por eleger candidatos de esquerda em todo o quintal de Washington. Ninguém sabe se o novo ciclo vai saber desconcentrar renda. Está provado que os generais e os neoliberais não sabem.

O agnosticismo da Michelle não é irrelevante, ainda mais no Chile, em que, como na Argentina, a Igreja tem uma longa história de tutelagem política e é muito mais um agente político do conservadorismo do que, por exemplo, no Brasil. A maçonaria foi um veículo para a interferência da metafísica na política brasileira que a Igreja, com toda a sua força, nunca foi, enquanto que é impossível entender a história de Chile e Argentina sem conhecer o papel da Igreja. Pelo menos uma revolução cultural a Michelle já fez.

E o fato de ser mulher, e a primeira a governar o Chile, não é apenas uma curiosidade. Também pode ser o começo de um ciclo. Já tem uma alemã governando a Alemanha, uma liberiana governando a Libéria e fala-se muito na Hillary Clinton para presidenta. Aqui temos a Dilma Rousseff, a Yeda Crusius, a Heloísa Helena… E já abro o meu voto: Patrícia Pillar.