E depois de algum tempo examinando o mapa:
— Tragam uma criança de três anos!
Uma criança de três anos teria dito ao Bush que a intervenção no Iraque levaria a uma guerra aberta entre facções religiosas e etnias que sempre se desentenderam no país. Bush ouviu seus ideólogos neoconservadores. Não aconteceu o que eles previram. Aconteceu o que uma criança de três anos diria que estava na cara.
A criança de três anos não representa apenas o óbvio, ou o senso comum. Representa um olhar inocente, no sentido de ser livre de idéias feitas, ilusões e vícios de pensamento. Não é fácil pensar como a proverbial criança de três anos — há o risco de se confundir simplismo com sabedoria. Mas é sempre saudável pensar em assuntos complexos — ou em outras áreas de conflito além do Iraque, como, por exemplo, a política brasileira — tentando separar o que é preconceito e vontade do que está na cara.
Pergunte-se sempre como a criança de três anos do Groucho entenderia as várias barafundas atuais e o que realmente está acontecendo.
Ou, pelo menos, como o Groucho, mande chamá-la.
E os ingleses na margem como se não fosse com eles.
Leia o resto deste artigo »
Você pode identificar o provável começo de todas as modalidades olímpicas nas coisas que gostava de fazer quando garoto – como arremesso de pedras contra vidraça de vizinho e corrida de fundo para fugir do vizinho – ou então na História: o salto com vara, por exemplo, certamente começou no sítio a cidades fortificadas, depois de decidirem que atirar javalins, martelos e discos por cima do muro não estava dando resultado.
No tempo em que ainda se escrevia crônicas de Carnaval (pequenas ficções sobre alegrias ilusórias e glórias passageiras, pseudo-ensaios sociológicos sobre essa peculiaridade nacional, sobre a criatividade popular ou a metafísica de um umbigo) a literatura da Quarta-feira de Cinzas era maior do que a dos outros dias. Quarta-feira de Cinzas era dia de ressaca e remorso, de fim de recreio e volta ao chão, e de todas as possibilidades dramáticas ou patéticas de um carro alegórico abandonado e um falso marquês estirado na sarjeta. Havia até uma subcategoria de crônica de Quarta-feira de Cinzas, a crônica de volta do marido para casa. Do reencontro, às vezes catastrófico, do brasileiro com a realidade na forma da Adalgisa esperando no portão, e não aceitando desculpas.
Leia o resto deste artigo »
Sempre que via um pôr-do-sol bonito, sentia que não era para ela. Sempre que comia sorvete de doce de leite era com a mesma sensação de clandestinidade
…como se fosse a sua casa na próxima Idade do Gelo, tudo congelado, tudo coberto com uma camada do que parecesse vidro, e você entrasse na casa mal podendo se equilibrar sobre o chão escorregadio, e tudo que você tocasse se desmanchasse como se fosse feito de açúcar, tudo, a poltrona do seu pai, as cortinas duras da sala de jantar, a cristaleira, e bastasse tocar em qualquer coisa com um dedo, as frutas artificiais sobre a mesa, as cadeiras em volta da mesa, e cairia em estilhaços – até a geladeira.
“Ao nascer, cada um de nós recebe cinco cartas para começar, como no pôquer”, disse Julião. “Eu não recebi carta nenhuma quando nasci”, retrucou o Telmo, que mastigava seu charuto
“O pôquer é uma metáfora para a vida.” A frase pairou no ar, junto com a fumaça. Eram cinco em volta da mesa. Dois fumavam charutos. O autor da frase esperou alguns minutos pela reação dos outros e, quando ela não veio, começou a repetir:
- O pôquer é uma metá…
- Está bem, Julião – disse um dos outros, com um suspiro – o pôquer é uma metáfora para a vida. Desenvolve, desenvolve. Leia o resto deste artigo »
Só queria um chope antes de ir para casa. Sexta-feira de uma semana pesada. Calor. Cansaço. A última coisa que queria era conversa com o Pepe. Mas o Pepe veio sentar ao seu lado na mesa.
Leia o resto deste artigo »
— Senhor, os dados não estão corretos.
Examinei os números do cartão antigo e do novo. Eram aqueles mesmo. Meu RG era aquele mesmo. Meu CIC também. Será que eu passara a vida inteira chamando meu pai pelo nome errado? E o nome da minha mãe, era pseudônimo? Pouco provável. Eu disse para a voz que os dados estavam certos.
— Senhor, alguns dados não conferem com os que temos. Por favor, muna-se da documentação necessária e ligue outra vez.
— Mas eu estou com a documentação aqui e se ligar outra vez vou dar a mesma informação.
Finalmente descobri que podia passar um fax com cópias dos documentos que provavam que eu era eu. Foi o que eu fiz. Semanas depois recebi uma carta impressa, com um “x” marcando a razão pela qual meu fax era inaceitável: “Ilegível”. Mandei as mesmas cópias, bem nítidas, pelo correio. Passaram-se semanas. Liguei outra vez para o 4001-4828, para saber das novidades. A voz sabia do meu fax ilegível.
— Mas eu mandei uma carta depois.
— Também estava ilegível.
Desisti de desbloquear meu cartão novo. Tudo bem. A vida moderna tem esses buracos negros tecnológicos, culpa de ninguém. Mas será que sabem o estrago que fizeram no amor próprio de um cronista, chamando-o repetidamente de ilegível? Foi por estar assim fragilizado que fiquei emocionado quando me contaram que o Fernando Henrique Cardoso, na sua entrevista no “Roda Viva” (não vi, estava vendo outro bom ator, o Marlon Brando, na Net), disse que eu não entendia de nada, mas escrevia bem. Eu e meu ego nos sentimos desagravados. Obrigado, Fernando Henrique!
Só um adendo. Há dias chegou uma correspondência do cartão de crédito, estranhando a minha demora em desbloquear o cartão novo.
Se não fosse uma carta impressa, sem uma assinatura humana, eu desconfiaria de ironia.
“Bonito o seu castelo de areia”, disse o homem para o garoto na beira do mar. “Não é castelo”, respondeu o guri. “É um condomínio fechado”
O homem estava caminhando na praia e passou por um garoto que fazia uma construção de areia. Parou para olhar. Lembrou-se do seu tempo de garoto, quando também gostava de fazer aquilo. Lembrou-se do seu orgulho quando terminava a construção, dando os retoques finais com areia molhada. Não importava que a construção fosse destruída logo em seguida, ou que a maré a destruísse durante a noite. Podia fazer outra. E se orgulhar de novo ao terminar seu castelo de areia.
Leia o resto deste artigo »
A frase que o Everton mais ouvia da mãe era “levanta e vai buscar”, geralmente seguida de um epíteto, como “seu preguiçoso” ou, pior, “lerdeza”. Porque o que o Everton mais fazia, atirado no sofá na frente da TV na sua posição de costume (que a mãe chamava de “estrapaxado”), era pedir para lhe trazerem coisas. Uma Coca. Uns salgadinhos…
- Levanta e vai buscar!
- Pô, mãe.
- Lerdeza!
O Everton já estava com quinze anos e era uma luta convencê-lo a sair do sofá e ir fazer o que os garotos de quinze anos fazem. Correr. Jogar bola. Namorar. Ou pelo menos ir buscar sua própria Coca.
Leia o resto deste artigo »
- Me disseram…
- Disseram-me.
- Hein?
- O correto e “disseram-me”. Não “me disseram”.
- Eu falo como quero. E te digo mais… Ou é “digo-te”? – O quê?
- Digo-te que você…
- O “te” e o “você” não combinam.
- Lhe digo?
- Também não. O que você ia me dizer?
- Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que eu vou te partir a
cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
- Partir-te a cara.
- Pois é. Parti-la hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
- É para o seu bem.
- Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender.
Mais uma correção e eu…
- O quê?
- O mato.
- Que mato?
- Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar-lhe-ei-te. Ouviu bem?
- Pois esqueça-o e pára-te. Pronome no lugar certo e elitismo!
- Se você prefere falar errado…
- Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou
entenderem-me?
- No caso… não sei.
- Ah, não sabe? Não o sabes? Sabes-lo não?
- Esquece.
- Não. Como “esquece”? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou
“esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
- Depende.
- Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não
sabes-o.
- Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
- Agradeço-lhe a permissão para falar errado que mas dás. Mas não posso
mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
- Por que?
- Porque, com todo este papo, esqueci-lo.
Homem senta num bar ao lado de um velhinho que lhe parece familiar. O velhinho está um caco mas, mesmo assim, aquele bigodinho, aqueles olhos…
- Desculpe, mas você não é o Adolf Hitler?
- Sou.
- Pensei que você tivesse…
- Todo mundo pensou. Continuo vivo.
- Aposto que você vive cheio de remorso pelo que fez.
- Que foi que eu fiz?
- Mas como? E os seis milhões de judeus que mandou matar?
- Ach,eles. Já tinha me esquecido.
- Quer dizer que se fosse começar outra vez, hoje, você faria a mesma coisa?
- Não. Mandava matar seis milhões de judeus e dois acrobatas.
- Por que dois acrobatas?
- Viu como você esqueceu os judeus?
A tática, ajustada às devidas proporções, tem sido muito usada por aqui. Quando um assunto ameaça a se tornar um escândalo, ou quando um escândalo ameaça se tornar assunto, acrescente, rápido, dois acrobatas. Os acrobatas passam a ser o assunto. E os acrobatas não têm falhado muito, ultimamente, neste país de distraídos. Sua última aparição foi no caso do Eduardo Jorge. Lembra dele? Eduardo Jorge, aquele que era secretário particular do… O patriciado brasileiro sobrevive porque dominou a arte de mudar de assunto
Não se deve ver coisas demais na Michelle. Já ouvi alguém chamá-la de “Linda!”, mas devia ser um esquerdista brasileiro, sem muito com o que se entusiasmar ultimamente, num momento de descontrole. Para começar, quem ganhou as eleições no Chile foi a situação. A “Concentración”, coalizão de centro-esquerda que apoiou Michelle, governa o Chile há anos. Não deve mudar muita coisa na política econômica do país que os neoliberais brandem como exemplo de sucesso na América Latina. O que é diferente, apenas curioso ou entusiasmante mesmo na Michelle depende da ordem em que você declinar seus atributos mais citados: socialista, mulher e divorciada agnóstica; mulher, socialista e divorciada agnóstica; divorciada agnóstica, socialista e mulher etc.
Se socialista é o mais definidor de tudo que ela é, isso significa que os chilenos não quiseram apenas outro social-democrata no poder e que os problemas criados pelo modelo neoliberal, como crescentes concentração de renda e distância entre ricos e pobres, que conhecemos bem, se agravam e pedem outro aproxe. Também significa que, mantidos os contextos e as peculiaridades de cada um (ela não é exatamente o Evo Morales de tailleur), a eleição da Michelle faz parte da mesma reação que já elegeu ou está por eleger candidatos de esquerda em todo o quintal de Washington. Ninguém sabe se o novo ciclo vai saber desconcentrar renda. Está provado que os generais e os neoliberais não sabem.
O agnosticismo da Michelle não é irrelevante, ainda mais no Chile, em que, como na Argentina, a Igreja tem uma longa história de tutelagem política e é muito mais um agente político do conservadorismo do que, por exemplo, no Brasil. A maçonaria foi um veículo para a interferência da metafísica na política brasileira que a Igreja, com toda a sua força, nunca foi, enquanto que é impossível entender a história de Chile e Argentina sem conhecer o papel da Igreja. Pelo menos uma revolução cultural a Michelle já fez.
E o fato de ser mulher, e a primeira a governar o Chile, não é apenas uma curiosidade. Também pode ser o começo de um ciclo. Já tem uma alemã governando a Alemanha, uma liberiana governando a Libéria e fala-se muito na Hillary Clinton para presidenta. Aqui temos a Dilma Rousseff, a Yeda Crusius, a Heloísa Helena… E já abro o meu voto: Patrícia Pillar.