Para o Carnaval

Dezembro 10, 2008

Todo ano é a mesma coisa: você chega, fica aqui três dias e aí vai embora. Volta um ano depois, todo animadinho, querendo me levar para a gandaia. Olha, honestamente, cansei.

Seus amigos, bando de mascarados, defendem você. Dizem que sempre foi assim, festeiro, brincalhão, mas que no fundo é supertradicional, de raízes cristãs, e só quer tornar as pessoas mais felizes.

Para mim? Carnaval, desengano… Você recorre à sua origem popular e incentiva essas fantasias nas pessoas, de que você é o máximo, é pura alegria, mas não passa de entrudo mal-intencionado, um folguedo, que nunca viu um dia de trabalho na vida.

Acha-se a coisa mais linda do mundo e é cafonice pura. Vive desfilando pelas ruas, junto com os bêbados, relembrando o passado. Chega a ser triste.

Carnaval, você tem um chefe gordo e bobalhão que se acha um rei, mas não manda em nada. Nunca teve um relacionamento duradouro. Basta chegar perto de você e temos que agüentar aquelas fotos de mulheres nuas, que são o seu grande orgulho.
Você não tem vergonha, não?

Sei que as pessoas adoram você, Carnaval, mas eu estou cansada dos seus excessos e dessa sua existência improdutiva. Seja menos repetitivo, proponha
algo novo. Desde que o conheço, você gosta das mesmas músicas. Gosta de baile. Desculpa, mas estou pulando fora.

Será que essa sua alegria toda não é para esconder alguma profunda tristeza? Será que você canta para não chorar? Tentei, várias vezes, abordar essas questões, e você sempre mudou de assunto. Ora, chega dessa loucura. Reconheça que você se
esconde atrás de uma dupla personalidade.

Cada vez mais e mais pessoas ficam incomodadas com essa sua falsa euforia, fique sabendo. Conheço várias que fogem, querendo distância das suas brincadeiras.
Você oprime todo mundo com esse seu deslumbramento excessivo diante das coisas, sabia?

Por exemplo, essa sua mania de camarote. Onde os vips podem suar sem que isso pareça nojento. Onde se pode falar torto sem que seja errado. Todos vestidos de uniforme, senão não entram. Todos doidos para passar a mão na bunda um do outro.
Essa é a sua idéia de curtir a vida?

Menos purpurina, Carnaval. Menos bundas, menos dentes para fora. A vida é linda, mas a “lindeza do lindo mais lindo que há no lindíssimo” é um saco. Um pouco de calma e autocrítica nunca fez mal a ninguém. Tudo muda no mundo – por que
você insiste em continuar o mesmo?

A harmonia vem da evolução, não das alegorias. Chegou a hora de rodar a baiana para não atravessar na avenida.

Como será amanhã? Responda quem puder.
Beijos,

Fernanda Young


“Toda mulher é meio Amy Winehouse”

Novembro 27, 2008
atyaaaberaczvwsvlt1k0-xrwuxpktr9e022nb2uvhom3sy9y54dty_6lc_c4wnr4qs3zos7837znpb8jb-yuo6xvfgrajtu9vanfsa5ju4bcld-qmywcurxlhegiaQuem não tiver uma Amy Winehouse dentro de si que se apresente. Vai se apresentar para uma platéia vazia, obviamente, pois nessas ninguém está interessado. Mulheres que não admitem a sua dor – aquelas que são perfeitamente esquecíveis – não merecem nenhuma poesia, ou rascunho, ou rápida melodia, pois se recusam a abrir mão do conforto de uma farsa em nome de uma verdadeira vocação: a de sofrer belamente. O Drummond escreveu que “a dor é inevitável, mas o sofrimento é opcional”. Um verso bonito, além de sábio, porém tipicamente masculino. Mulheres não sofrem por opção, sofrem por evolução. Nós sofremos porque percebemos coisas que os homens ainda não são capazes. Talvez, um dia. Não há, portanto, a mulher que não sofra – há a que não se mostra. Já que o sofrimento é, para nós, uma espécie de vestido lindo, antigo e bem adornado; um Paul Poiret. À nossa disposição, no  cabide. Então usaremos essa roupa, não tenham a menor dúvida. E algumas de nós o farão em público, deslumbrantemente. Como é o caso da Amy. 

Você olha para ela e vê que aquela é sua maior aptidão: existir sob esse manto raro, por vezes sombrio, que a cobre. Não há nada em Amy Winehouse que não seja genuíno, e isso consegue ser gritante em sua música suave enquanto doce em sua aparência rude. Atraente e  repugnante ao mesmo tempo. Linda e digna de pena. Ora, pode haver imagem mais explícita da crucial inconstância feminina? Óbvio que é disgusting vê-la toda borrada, sem um dente, com sapatilhas a lhe denunciar as picadas que dá nos pés. Mas também é maravilhoso vê-la tão pequena, antiga de tão moderna, na medida que só os autênticos conseguem ser, e se equilibrar. Mesmo que essa idéia, a de equilíbrio, não pareça muito adequada à Amy. Para mim,é.
 Amy Winehouse é um acontecimento secular, tipo Billie Holliday, Edith Piaf. A gente não tem como exigir higiene, ou conduta, ou senso de preservação, ou auto-estima, dessas mulheres. Seria pedir demais.

 Como dizer para essa moça o que ela talvez devesse ouvir? “Ei, Amy, deixe esse cara pra lá, ele não vale tanto a pena.” “Ei, Amy, faz o seguinte: toma no máximo cinco cervejas quando for ao pub.” “Ei, Amy, fume seu baseado, mas deixe o resto de lado.” Imagina a cara que ela iria te olhar?

 Pela Amy Winehouse, sinto essa contradição, acho, parecida com a de todas as mulheres. Eu me identifico com a delinqüente, e a mulherona que cobre o Blake de porrada, mas me preocupo, como uma mãe com uma filha, a ponto de rezar por ela todas as noites. Uma reza sincera, para que Deus a proteja, igual faço pelas minhas meninas. Amy, olha só: você é tão jovem… E quando fico emocionada tenho essa mania, cafona e burra, de usar reticências… Mas não!… Para a Amy Winehouse, não cabem emocionalidades baratas. A triste junkie que habita em mim não suportaria parecer uma mãezona dócil que faz promessa.
Então, mais uma dose. Por que que a gente é assim?

 BAD GIRLS INJUSTIÇADAS

Por que bad boys são “os fodões” e bad girls são “as fodidas”? Por que os bad boys são símbolo de liberdade e as bad girls são presas para servir de símbolo? Por que bad boys são assim por rebeldia e as bad girls são assim por sem-vergonhice?
 Aparentemente, o mau comportamento ficou de fora das conquistas feministas. Então que  seja esta nossa nova luta: pela igualdade de direito de errar. Direito de fazer o que não se deve. De chegar em paz ao fundo do poço.

 Dean Martin, Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e aquele outro, que eu esqueço o nome, bebiam todas, consumiam tudo, comiam qualquer uma – e eram o charmosíssimo “rat pack”.

 Britney Spears, Lindsay Lohan, Paris Hilton e aquela outra, que eu também esqueço o nome, bebem uns champanhes a mais, tomam uns analgésicos, dão umas batidinhas de carro – e são as vadias bêbadas e drogadas de Hollywood.

 

 

É, o machismo acabou só para as caretas. Para as doidas continua valendo. Acho, inclusive, que as próprias mulheres têm culpa nesse atraso. Notoriamente mais competitivas entre elas, não competem apenas com a colega do lado, mas com todas as mulheres do mundo.
 De Marilyn Monroe a Anna Nicole Smith, todas morreram sem uma amiga do lado. Por quê? Porque mulheres não são companheiras na sarjeta. Homens são. Ou seja, encontramo-nos no ponto em que, juntos, chegamos. Não sei se tem alguém torcendo contra a Amy Winehouse, no momento, mas, se tiver, é mulher.

 Eu? Eu torço por ela mais do que pela seleção brasileira.

 SOPHIA LOREN MEXICANA

 Minha implicância com conversas moles é tanta que nunca atendo telefones. Atendo o celular, mas só quando a chamada vem identificada. E ele pouco toca, pois vivo trocando de número. Adoro celular – confesso que ele funciona quase como uma extensão de mim. Mas preciso dele o mais quieto possível, já que, por alguma das minhas mil carências, jamais o desligo.
Quando Giselle me ligou, eu estava distraída – ou talvez aguardasse surpresas, vindas do DDD do Rio. Por isso atendi um número que não reconheci.

 Com uma voz segura, mesmo que em um tom emotivo, não disfarçado, ela disse quem era, como tinha conseguido meu celular e pediu para me mostrar umas fotos. Revelou que adorava o meu trabalho e que, quando ficasse mais velha, queria ser como eu. Como? Mais velha?? Como eu???

 Giselle disse que estava vindo para São Paulo e, qualquer dos próximos dias, qualquer horário, para ela seria bom.

 Gente, “me mostrar umas fotos”? Que que ela quer comigo? Poderia me fazer de maluca – coisa que, para mim, não é exatamente difícil – e dizer que estava de viagem marcada para não-sei-onde, ou que não-sei-quem morreu. Mas a Giselle é tão bonita que resolvi conhecê-la. Sim, senhoras e senhores, só topei encontrá-la porque ela é bonita.

 O fato é: se a Giselle Itié liga para você, querendo lhe mostrar qualquer coisa, você topa. Seja você homem, mulher, hétero, gay, papa ou presidente da República.

 Pois bem, nosso primeiro encontro foi breve, pontuado pela honestidade. Ela começou falando um pouco sobre o quanto se identificava com a música da Amy Winehouse e que, apesar de não ser autodestrutiva como a cantora, compreendia aquela dissolução e carência. Sensação que nos leva, mulheres, a um desespero sem trégua, em nome do suposto amor. Eu não só concordei, como assumi que também tinha uma Amy guardada em mim, sempre à espera de um Blake. E que esta é a grande loucura feminina: essa absoluta necessidade do olhar do outro, objeto de nossas inseguranças, nem sempre escolhido com bom gosto.

Foi quando ela me mostrou as fotos. E elas me comoveram. Por um instante, antes de vê-las, temi que tivessem atyaaacwvz4nw5lyra0dp4u1vqw_mip4kpdmtldqigouchasr_0lvdemsewky5uq1ost0vlka1vsyji5ivfxgumvmlw4ajtu9vbku7rkmtp414osnc9h8-yxxnh2hgficado caricatas, ou fashion, tipo editorial de revista. Mas não. Não vi uma atriz na pele de uma personagem. Vi a pequena Amy Winehouse na pele de Giselle, uma morena grande, meio brasileira meio mexicana, que mais parece uma estrela italiana da década de 50.

Aceitei escrever este texto, para acompanhar as imagens. E me envolvi, com palpites, na realização de novas fotos; pois Giselle fez questão de se dedicar em fazer jus à musa bad girl. Com o carinho de não deixá-la mais sensual do que a sua dor permite.

Tomara que eu tenha feito tão bom serviço quanto ela. E tomara que Giselle venha logo a saber que ela já é como eu: uma mulher de coragem.

 

 


Para o Ano Novo

Novembro 27, 2008

E aí, quais são as novidades? Vai se fazer de misterioso mais uma vez? Ando curiosa para saber o que você pretende comigo.

Não quero parecer ansiosa, mas estou contando os dias para a sua chegada. Acho até que vou colocar uma roupa nova para esperar você na entrada; faço questão de que me encontre bonita.

Para começarmos com o pé direito, como você gosta, vou comprar uma garrafa de champanhe; brindaremos à nossa saúde no momento em que cruzarmos os olhos. Feliz – é assim que o quero, Ano Novo, e farei tudo ao meu alcance para que isso seja possível. Se dependesse de mim, sua estadia entre nós seria uma alegria após a outra. Receio, porém, que de mim pouco dependa.

Por exemplo, sendo você ano de eleições, haveremos de manter contato com as duas piores coisas que existem no nosso país: os políticos e os horários políticos obrigatórios. É realmente uma pena que você e o Ano Velho não tenham chance de se encontrar, pois ele, que está de saída, poderia lhe contar como ficou marcado para sempre pela corja da corja que aqui ele conheceu – ou há gente pior que a que rouba de hospitais públicos e depois se faz de vítima nos palanques?

Pois bem, fora essas e mais uma meia dúzia de prováveis tragédias mundiais, não prevejo outros problemas no decorrer de sua presença. Na verdade, com a quantidade de festejos e comemorações com que o enchem aqui no Brasil, você passa entre nós quase sem ser percebido. Quando começarmos a nos restabelecer das festas da sua chegada, já estaremos no Carnaval. Depois, vem o feriado da Semana Santa, e aí são as férias de julho, e, de repente, você já está arrumando as malas para ir embora.

Falando nisso: gostaria de dizer que eu não tenho expectativas em relação ao que você vai me trazer, mas tenho. Principalmente porque você sabe tudo de que eu preciso e tem espaço suficiente para que várias dessas coisas caiba

Sabe também que eu não sou muito fã de surpresas, então não se esforce demais para me surpreender. Se por acaso me trouxer algumas más notícias, tudo bem, mas tente não ser abrupto. Sei que vários problemas estão fora do seu alcance; portanto, prometo não me aborrecer caso algo não venha como eu esperava.

Traga o que trouxer – fique tranqüilo -, você será recebido com foguetes. Pois sua chegada, sempre tão pontual e garantida, com suas promessas, sempre tão amplas e verdadeiras, renova, em todos nós, a esperança que vai-se embora, um pouco, a cada dia. E, ai, ai, ai, já está chegando a hora. Minhas simpatias,

Fernanda Young*

P.S.: caso venha com muito dinheiro no bolso, conforme espero, cuidado com os assaltos.


Ao Sono

Novembro 23, 2008

Ontem, mais uma vez, esperei horas e você não veio. Hoje, passei a manhã inteira irritada por causa disso. Aí, você me chega depois do almoço, sem a menor explicação, como se isso fosse normal. Eu cheia de coisas para fazer e você querendo me levar para tomar um café. Está querendo acabar comigo, é isso?

Uma amiga minha me abriu os olhos: nós dois estamos vivendo uma relação doentia. Eu estou me sujeitando aos seus horários e você está desrespeitando os limites. Não é porque eu vou para a cama com você que eu deixei de chefiar o órgão onde você exerce a sua função.Você tem faltado muito e estou cansada disso. Quando não falta, demora para chegar e vem disperso, agitado, não ajudando em nada. Eu preciso de você tranqüilo, cumprindo seu dever, todos os dias, oito horas por dia, igual a todo mundo. Ou não posso garantir o bom funcionamento da nossa unidade.

Sono, sinceramente, qualquer probleminha que surge, você some. Tudo serve de desculpa para você não aparecer: uma conta para pagar, uma viagem de negócios, um caso de doença na família. Por mais que eu não queira te prejudicar, não posso agüentar um sono assim, tão inconstante.A partir desta noite, não quero mais nenhuma irregularidade sua. Não estou exigindo que você seja perfeito, mas, na próxima vez que eu tiver de remediar alguma ausência de sua parte, vou tomar medidas extremamente fortes. E não me importam as reações.

Desejo uma convivência leve e sadia entre nós, mas prefiro ter você sempre pesado do que sofrer as conseqüências da atual situação.Não posso entender por que você mudou tanto. Lembro das agradáveis noites que passamos juntos – você eventualmente profundo, muitas vezes superficial, mas sempre presente em minha vida. Mesmo durante o dia, você dava um jeito de estar ao meu lado quando eu ficava deprimida, de cuidar de mim quando eu ficava com febre, de aliviar meu stress quando eu trabalhava demais.

Agora, quase nunca posso contar com você. Você só aparece quando bem quer e quando eu menos preciso: num cinema, numa festa, num restaurante. Sua presença, antes tão gratificante, ultimamente só serve para me atrapalhar. Você jamais consegue estar comigo nas horas importantes, tem sempre algo complicado impedindo-o de chegar; mas sei de outras mulheres que dormem com você sem a menor dificuldade. Liguei para uma colega minha, noite dessas, para reclamar de mais uma das suas fugidas, e ela teve o desplante de dizer que não podia falar comigo porque estava na cama com você.

Enfim, estou com olheiras, e é por sua culpa. Mas sei que necessito dos seus serviços, então lhe dou este ultimato. Ou você toma jeito e volta a me deixar em paz ou você afunda junto comigo.

Atenciosamente,

Fernanda