Piraturistavegante

Outubro 30, 2008

Ele era todo mar; ele era mar até no nome, igual seu vô Marcelo. Ele era mar de espírito, mar de paixão. Era mar a vida toda, mas na vida não vira mar.Morava lá pra dentro da grande terra, tão pra dentro que.

            E naquela secura continental nenhuma água doce e suas espécies, riachos e rio de pesca e mergulho e banho de sol, nada disso aplacava sua sede. Ademais, o rio maior, o rio orgulho, imponente Rio dos Demais Meses Que Não Janeiro era ainda por cima estúpido. Faltava-lhe um quanto de objetividade e, em bêbado passo, fazia um trôpego ‘S’.

            Mas o mar, ah!, o mar. Ele viu pela primeira vez no postal do irmão da cidade grande. Copabacana estava escrito no topo esquerdo, logo em cima de umas quantas bundas douradas e aquela infinita água que não se divisava outro lado. Correu pro pai e depois pra mãe: que é esse azul todo? O mar, ora, garoto sonso, ouviu duas vezes antes de procurar o Marcelo Velho que sabia de tudo e podia contar pra ele.

            O mar era um monte de água maior que qualquer monte de terra que ele podia imaginar, foi o que lhe falou, e não se podia beber que dava mais sede e nem ir pro fundo que tinha bicho, baleia tubarão sereia. Escutou também que ele era fundo, nalguns pontos tão fundo que o diabo morava lá pra não ter de ver a luz do sol. E tinha também a lula, uma  pequenina que a gente comia frita e uma gigante que comia a gente cru mesmo. E tinha pirata e ilha de tesouro. E tinha também as praias, cheias de areia e pessoas, vazias de roupas, mas isso era uma conclusão própria.  

            Coisa dessas já tem suficiente mérito pra virar cabeça de gentinha -diminutivo de tamanho, não caráter. Já não vivia mais lá, voava pro Rio, o de Janeiro, único rio que prestava imaginar. Em companhia de belas bundas -bundas sem rosto, milagre de infantil erotismo- inspirava o cheiro do mar salgado na beira do rio. Não era igual, mas fingia, jogava sal grosso e sorvia o cheiro como boticário. Ou então estava no barco que era em cima da cerca, e as gaivotas-galinhas denunciavam imprecisa “terra à vista!”. Terra, terra, fraca terra; ilha sitiada, pobre e indefesa, por grandiloqüente Mar. A macieira tornava em coqueiro, as formigas, tatuí. A lama era areia, que o irmão contou que pegava no pé. Os peixinhos eram golfinhos, os peixões baleias. E ele, piraturistavegante explorava, extrapolava o careta ser num inventar-ser.

            Perdido noutras terras passava o tempo té que a mãe chamou (como chamam as mães todas, insensatas, insensíveis), pra prosaica e desimportante janta. E ainda tinha de comer todos os legumes, pensava, com mil diabos!

            Viu na mesa outros postais, outras praças de mesmo encanto: Ipanemaleblonbarra iguais em virtudes à bacana Copa. Esses e também uma estátua em pedra de braços abertos. Dessa vez foi direto no velho Marcelo que explicou que era o Cristo Redentor e o rapaz desconfiado perguntou porque esse não sangrava e morria na cruz e isso o sábio avô não sabia responder sem reticências…

            Mas ele, garoto esperto, ele sabia. Podia até ser que o tal filho de deus quisesse também lá morrer dependurado no diabo da cruz, velho hábito adquirido pouco menos de dosmilanos anos antes. Mas lá, com tantas bundas e areia, com tanto peixe e azul e gente, com tanto Mar, tanto Mar, fora impossível não deixar a cruz pra lá, abrir os braços e (quase) sorrir.    

 

 

 

 

Kurt Weiss


Da auto-ajuda à auto-piedade

Outubro 30, 2008

(uma lição psicogeométrica)

 

só eu sou eu

eu só sou eu

eu sou só eu

eu eu sou só

 


Outubro 30, 2008

Parte V

 

-Ora, você tem que entender-disse entre soluços- Isto é uma maluquice!

Quem há de entender aqui é você! Não saio daqui sem ela! E nem você!

 

E continuava apoiando a arma contra a têmpora do escritor.

 

Parte I

           

Secou as lágrimas.

Não que fosse emotivo.

Nem que fosse um bom romance.

Mas…..

 

Aos poucos e indo pelas beiradas, crescendo dentro dele… Era isso!

Paixão.
Era ela a mulher de sua vida.

 

Parte III

 

-Que você que que eu faça?

-Me diz onde ela tá!

-Ela tá lá, onde eu escrevi.

-Onde?

-Em lugar nenhum, porra! Ela não existe!

 

A situação era drástica. E fora pra caso de necessidade que ele comprara a arma.

Sacou o revólver e apoiou contra a têmpora do escritor.

 

Parte II

 

Como qualquer paixão, havia problemas.

Desde o princípio.

           

1.      Ela não o conhecia- e nem poderia.

2.      Além de ser sua musa, era também protagonista de um romance barato.

 

Parte IV

 

-Como não existe?!? Tanto existe que estava lá!

-Calma!- disse o escritor mais para si mesmo que para seu algoz.

Pensou.

- O que você que com ela?

-Eu a quero! Eu a amo! – respondeu loucamente apaixonado (ou apaixonadamente louco, pros de duro coração).

 

 

Parte VI

Longas horas se passaram em minutos.

A arma ainda estava lá, contra sua cabeça.

Mas já não era mais verdade, era sonho, delírio.

(Quando a vida está a um gatilho de distância, o que pode ser real?)

 

Parte VII

 

Idéia. Solução. Era loucura.

 

Parte VIII

-Tenho uma idéia!

-Quê?

- Tem um jeito sim! Um jeito. Um só jeito de fazer…

O homem o ouvia com atenção.

-Mas você tem que se comrpometer. Digo, é a única maneira de tê-la…

-Fale logo homem!

-Nunca fiz isso antes…

-DIGA!- e engatilhou a arma.

-Eu vou ter que escrevê-lo.

 

Parte IX

 

Sem refletir, aceitou.

Quanto gozo! Teria sua amada.

 

Parte X (FINAL)

 

E o autor escreveu.

E lá estava ele, escrito numa folha de papel.

Uma personagem semijogada e perdida no meio da narrativa.

Ele leu. E não achou bom.

 

Deu-lhe o merecido destino das idéias ruins dos escritores.

E ele jaz no fundo da cesta de lixo, junto com dezenas-centenas de idéias abortadas.

 

Kurt Weiss


Eu

Março 22, 2008

Eu escrivinhador
escrevinhador
escrevimiador
escrevi minha dor e ainda dói pra burro