Ele era todo mar; ele era mar até no nome, igual seu vô Marcelo. Ele era mar de espírito, mar de paixão. Era mar a vida toda, mas na vida não vira mar.Morava lá pra dentro da grande terra, tão pra dentro que.
E naquela secura continental nenhuma água doce e suas espécies, riachos e rio de pesca e mergulho e banho de sol, nada disso aplacava sua sede. Ademais, o rio maior, o rio orgulho, imponente Rio dos Demais Meses Que Não Janeiro era ainda por cima estúpido. Faltava-lhe um quanto de objetividade e, em bêbado passo, fazia um trôpego ‘S’.
Mas o mar, ah!, o mar. Ele viu pela primeira vez no postal do irmão da cidade grande. Copabacana estava escrito no topo esquerdo, logo em cima de umas quantas bundas douradas e aquela infinita água que não se divisava outro lado. Correu pro pai e depois pra mãe: que é esse azul todo? O mar, ora, garoto sonso, ouviu duas vezes antes de procurar o Marcelo Velho que sabia de tudo e podia contar pra ele.
O mar era um monte de água maior que qualquer monte de terra que ele podia imaginar, foi o que lhe falou, e não se podia beber que dava mais sede e nem ir pro fundo que tinha bicho, baleia tubarão sereia. Escutou também que ele era fundo, nalguns pontos tão fundo que o diabo morava lá pra não ter de ver a luz do sol. E tinha também a lula, uma pequenina que a gente comia frita e uma gigante que comia a gente cru mesmo. E tinha pirata e ilha de tesouro. E tinha também as praias, cheias de areia e pessoas, vazias de roupas, mas isso era uma conclusão própria.
Coisa dessas já tem suficiente mérito pra virar cabeça de gentinha -diminutivo de tamanho, não caráter. Já não vivia mais lá, voava pro Rio, o de Janeiro, único rio que prestava imaginar. Em companhia de belas bundas -bundas sem rosto, milagre de infantil erotismo- inspirava o cheiro do mar salgado na beira do rio. Não era igual, mas fingia, jogava sal grosso e sorvia o cheiro como boticário. Ou então estava no barco que era em cima da cerca, e as gaivotas-galinhas denunciavam imprecisa “terra à vista!”. Terra, terra, fraca terra; ilha sitiada, pobre e indefesa, por grandiloqüente Mar. A macieira tornava em coqueiro, as formigas, tatuí. A lama era areia, que o irmão contou que pegava no pé. Os peixinhos eram golfinhos, os peixões baleias. E ele, piraturistavegante explorava, extrapolava o careta ser num inventar-ser.
Perdido noutras terras passava o tempo té que a mãe chamou (como chamam as mães todas, insensatas, insensíveis), pra prosaica e desimportante janta. E ainda tinha de comer todos os legumes, pensava, com mil diabos!
Viu na mesa outros postais, outras praças de mesmo encanto: Ipanemaleblonbarra iguais em virtudes à bacana Copa. Esses e também uma estátua em pedra de braços abertos. Dessa vez foi direto no velho Marcelo que explicou que era o Cristo Redentor e o rapaz desconfiado perguntou porque esse não sangrava e morria na cruz e isso o sábio avô não sabia responder sem reticências…
Mas ele, garoto esperto, ele sabia. Podia até ser que o tal filho de deus quisesse também lá morrer dependurado no diabo da cruz, velho hábito adquirido pouco menos de dosmilanos anos antes. Mas lá, com tantas bundas e areia, com tanto peixe e azul e gente, com tanto Mar, tanto Mar, fora impossível não deixar a cruz pra lá, abrir os braços e (quase) sorrir.
Kurt Weiss
Publicado por brunarangel
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