Tenho, como tantos brasileiros, uma relação ambígua com Lula, nosso presidente. Já toquei, com os Titãs, em comícios do Lula quando ele disputava a presidência com o Collor. Apesar de Lula ter declarado atualmente que não teria condições de fazer um bom governo naquela ocasião, ainda assim votaria de novo nele, naquela eleição. O governo Collor, apesar da festejada abertura de mercados, representou o que temos de pior em oligarquias, bravatas, populismo, políticas obsoletas, corrupção e trapalhadas econômicas (isso não quer dizer que o governo atual não repita alguns desses vícios. Aliás, o anterior idem).
Também apoiei e admirei Lula em suas greves e reivindicações, nos tempos de líder sindical, e suponho que ele seja o grande fenômeno político brasileiro de nossa época, além de figura simpática e emblemática. Já tive, por outro lado, muitas divergências com sua forma de governar. Fui, e sou, crítico da maneira como Lula se portou durante a crise do mensalão e em várias outras situações. Apesar de eficiente para angariar simpatia popular, acho o populismo do Lula anacrônico e ineficiente para ajudar a solucionar os verdadeiros problemas do Brasil. Como membro da “zelite”, filho de professores (imagine, com o que ganham os professores e descaso com que são tratados, ainda assim fazerem parte de uma “elite” no sentido pejorativo usado por aí. Piada…) e admirador de Mário Covas – cheguei a trocar algumas palavras com o saudoso Mário em uma ou duas ocasiões e participei de sua campanha à presidência – , ao contrário da maioria, votei nos tucanos nas últimas eleições.
Mas sei reconhecer qualidades no governo Lula, e, diferentemente do que ocorreu com FHC, estou achando o segundo mandato de Lula melhor que o primeiro. E admito que ele deu uma bola dentro quando defendeu publicamente o debate sobre a legalização do aborto há duas semanas. Sintetizou com muita clareza o que ele, eu e muitos outros brasileiros pensamos sobre o problema: “Não se trata de ser contra ou a favor. Trata-se de discutirmos com muita franqueza que é uma questão de saúde pública”. É isso aí. Agora acho que todo mundo entendeu.
Tony Bellotto
Publicado por brunarangel