Luís Inácio falou, Luís Inácio avisou

Dezembro 19, 2008

Tenho, como tantos brasileiros, uma relação ambígua com Lula, nosso presidente. Já toquei, com os Titãs, em comícios do Lula quando ele disputava a presidência com o Collor. Apesar de Lula ter declarado atualmente que não teria condições de fazer um bom governo naquela ocasião, ainda assim votaria de novo nele, naquela eleição. O governo Collor, apesar da festejada abertura de mercados, representou o que temos de pior em oligarquias, bravatas, populismo, políticas obsoletas, corrupção e trapalhadas econômicas (isso não quer dizer que o governo atual não repita alguns desses vícios. Aliás, o anterior idem).

Também apoiei e admirei Lula em suas greves e reivindicações, nos tempos de líder sindical, e suponho que ele seja o grande fenômeno político brasileiro de nossa época, além de figura simpática e emblemática. Já tive, por outro lado, muitas divergências com sua forma de governar. Fui, e sou, crítico da maneira como Lula se portou durante a crise do mensalão e em várias outras situações. Apesar de eficiente para angariar simpatia popular, acho o populismo do Lula anacrônico e ineficiente para ajudar a solucionar os verdadeiros problemas do Brasil. Como membro da “zelite”, filho de professores (imagine, com o que ganham os professores e descaso com que são tratados, ainda assim fazerem parte de uma “elite” no sentido pejorativo usado por aí. Piada…) e admirador de Mário Covas – cheguei a trocar algumas palavras com o saudoso Mário em uma ou duas ocasiões e participei de sua campanha à presidência – , ao contrário da maioria, votei nos tucanos nas últimas eleições.

Mas sei reconhecer qualidades no governo Lula, e, diferentemente do que ocorreu com FHC, estou achando o segundo mandato de Lula melhor que o primeiro. E admito que ele deu uma bola dentro quando defendeu publicamente o debate sobre a legalização do aborto há duas semanas. Sintetizou com muita clareza o que ele, eu e muitos outros brasileiros pensamos sobre o problema: “Não se trata de ser contra ou a favor. Trata-se de discutirmos com muita franqueza que é uma questão de saúde pública”. É isso aí. Agora acho que todo mundo entendeu.

Tony Bellotto